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Qualidade de vida no tratamento da doença renal crônica: um desafio

Quality of life in the treatment of chronic kidney disease: a challenge

Cristiane Lara Mendes Chiloff; Ana Teresa de Abreu Ramos Cerqueira; André Luís Balbi

DOI: 10.5935/0101-2800.20170063

Citação: Chiloff CLM, Cerqueira ATAR, Balbi AL. Qualidade de vida no tratamento da doença renal crônica: um desafio. Braz. J. Nephrol. (J. Bras. Nefrol.) 39(4):351. doi:10.5935/0101-2800.20170063
Recebido: September 24 2017; Aceito: October 08 2017

Nas últimas décadas, a avaliação da qualidade de vida tem ganhado cada vez mais importância nos cuidados de saúde, aumentando sua relevância na prática médica, especialmente na categoria de doenças crônicas não transmissíveis. No entanto, ainda não há consenso sobre a definição de qualidade de vida, observando conceitos mais teóricos e mais operacionais1. Alguns autores consideram os fenômenos psicológicos como adaptação à doença, estratégias de enfrentamento (coping), auto-imagem, projetos de vida, componentes afetivos e cognitivos, os principais parâmetros da avaliação da qualidade de vida. Todavia, esse tipo de avaliação requer instrumento individualizado, tornando mais complexa sua aplicação e avaliação dos parâmetros de sua validade. Do ponto de vista prático, qualidade de vida pode ser entendida como a quantificação formal e padronizada do impacto do adoecimento na vida diária e no bem-estar do indivíduo, por meio de medidas objetivas da consequência de sintomas na vida diária das pessoas.

Buscando estabelecer princípios norteadores para a melhor compreensão desse constructo, já em 1995, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu qualidade de vida como "a percepção do indivíduo de sua situação na vida, no contexto da cultura e sistema de valores em que vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações2". Segundo esta proposta, a qualidade de vida está relacionada a processos multifatoriais, presentes no processo saúde-doença, associando os aspectos econômicos e socioculturais com a experiência pessoal e estilos de vida. A subjetividade é adicionada à complexidade dessa concepção, uma vez que a qualidade de vida é medida pela avaliação da situação pessoal de cada indivíduo em relação a sua vida diária3.

Com o aumento da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), acentuou-se o desafio para as políticas públicas que visam a promoção do cuidado com a saúde, e a preservação ou a melhora da qualidade de vida das pessoas. Dentre as doenças crônicas não transmissíveis, acentuou-se o desafio para as políticas públicas que visam a promoção do cuidado com a saúde, e a preservação ou a melhora da qualidade de vida das pessoas destaca-se a doença renal crônica (DRC), cujos pacientes terminais são submetidos à terapia renal substitutiva.

Nesta edição da Revista Brasileira de Nefrologia, Oliveira et al. apresentam um estudo transversal que analisou a avaliação da qualidade de vida e sua associação com taxas de mortalidade, hospitalização e adesão ao tratamento. Os autores identificaram comprometimento da qualidade de vida, particularmente nos domínios físico e emocional, que corroboram dados da literatura. Tal análise verificou que as taxas de hospitalização mais altas apresentaram correlação negativa com a avaliação da qualidade de vida. Além disso, uma baixa avaliação nos diferentes domínios que constituem a qualidade de vida indicou a necessidade de adaptação do paciente às mudanças drásticas no estilo de vida que ocorrem quando submetidos ao tratamento dialítico.

Outros fatores já identificados na literatura, associados à piora na qualidade de vida, foram: sexo feminino, idade avançada, baixo nível socioeconômico e escolaridade, ausência de ocupação regular, desnutrição, sintomas de ansiedade e depressão, tempo de tratamento e maior número de sintomas físicos e comorbidades4-5.

É importante notar que a prevalência de sintomas depressivos entre pacientes com doença renal crônica em diálise é alta e os sintomas foram, em vários estudos, considerados como importante preditor de pior qualidade de vida, comprometendo todos os domínios avaliados e influenciando negativamente a avaliação subjetiva do indivíduo sobre sua condição, o que exige que esses sintomas sejam identificados e tratados.

O impacto do tratamento dialítico na qualidade de vida é um critério importante para avaliar esta e outras intervenções na área da saúde, além de analisar o impacto das doenças crônicas no cotidiano das pessoas. Os avanços tecnológicos e terapêuticos na área de diálise foram inicialmente voltados para a avaliação da sobrevida e sinais de doença renal crônica. Posteriormente, reconheceu-se a necessidade de avaliar e compreender as consequências psicossociais do tratamento na vida desses pacientes e a necessária adaptação.

REFERÊNCIAS

Ramos-Cerqueira ATA, Crepaldi AL. Qualidade de vida e doenças pulmonares crônicas: aspectos conceituais e metodológicos. J Pneumonologia 2000;26:207-13.
The World Health Organization Quality of Life assessment (WHOQOL): position paper from the World Health Organization. Soc Sci Med 1995;41:1403-9. PMID: 8560308 DOI: http://dx.doi.org/10.1016/0277-9536(95)00112-K Link PubMed
Seidl EMF, Zannon CMLC. Qualidade de vida e saúde: aspectos conceituais e metodológicos. Cad Saúde Pública 2004;20:580-8. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2004000200027
Lowney AC, Myles HT, Bristowe K, Lowney EL, Shepherd K, Murphy M, et al. Understanding What Influences the Health-Related Quality of Life of Hemodialysis Patients: A Collaborative Study in England and Ireland. J Pain Symptom Manage 2005;50:778-85. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.jpainsymman.2015.07.010
Fukushima RLM, Menezes ALC, Inouye K, Pavarini SCI, Orlandi FS. Fatores associados à qualidade de vida de pacientes renais crônicos em hemodiálise. Acta Paul Enferm 2016;29:518-24. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201600072

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