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In Memoriam

Dr. Adyr Soares Mulinari (08/10/1927-01/12/2017): o raciocínio é o meio mais curto entre dois objetivos

Dr. Adyr Soares Mulinari (08/10/1927 - 01/12/2017): reasoning is the shortest path between two goals

Rogerio Andrade Mulinari

FIGURAS

Citação: Mulinari RA. Dr. Adyr Soares Mulinari (08/10/1927-01/12/2017): o raciocínio é o meio mais curto entre dois objetivos. Braz. J. Nephrol. (J. Bras. Nefrol.) 40(1):1. doi:

Adyr nasceu na primavera de 1927 em Curitiba, filho primogênito de Dna. Maria da Luz e de Santo Mulinari.

O jovem Adyr percebeu já na adolescência sua necessidade de descobrir o funcionamento das coisas da época, criar o novo, muitas vezes transformando em novas aplicações o já obsoleto. Foi esportista amador de alpinismo, basquete, natação, acampamento e, sobretudo, ciclismo.

Viveu uma época em que era imperioso para um jovem sem fortuna patrimonial demonstrar força física e moral, para merecer um lugar de destaque na comunidade. Aprendeu que aquela força devia ser acompanhada de estudo, esporte, socialização, aliada à coragem de defender suas posições, sem jamais fraquejar ou retroceder. Estas características permeariam sua vida, dando origem a sua franqueza, fonte de algumas confrontações memoráveis.

A paixão por estudar Medicina, nascida na infância, persistiu na sua juventude. Entretanto, duas barreiras desafiavam o seu futuro. A Universidade do Paraná, inaugurada em 1912, era uma universidade privada e de custas elevadas, e oferecia o único curso de Medicina do Paraná. O jovem Adyr superou a primeira barreira trabalhando em um escritório de contabilidade. A segunda, o já concorrido vestibular para uma das 90 vagas da Medicina, foi enfrentada com estudo e um curso preparatório. Graduou-se médico em 1951 na Universidade do Paraná, recém federalizada (UFPR).

Dr. Mulinari iniciou sua carreira como cirurgião urológico em Curitiba, tendo como mentor o Prof. João Atila Rocha. Foi assistente dedicado, operando no Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, hospital escola da UFPR. Ser contratado como instrutor de ensino do Departamento de Cirurgia da Universidade preencheu uma grande paixão, a vida acadêmica. Sua ânsia por descobrir o novo lhe permitiu preparar um material sobre tuberculose renal que originaria a tese de Professor Titular do Prof. Atila. Entretanto, ele já desejava mais que ser um exímio operador e professor de medicina. Tinha ânsia pela inovação.

Soube em 1959 da primeira oferta de bolsa da Fundação W. K. Kellogg para aprimoramento de professores de medicina da Universidade nos Estados Unidos da América. Novos desafios se seguiram, dominar a língua inglesa, obter a chancela da Administração da Universidade, passar com sucesso na seleção e nos exames do "Board", facultando exercer a Medicina na América. Adyr, que jamais havia tido contato com outro idioma, foi apresentado à jovem instrutora de inglês Laila Cury. Ela reconheceu que ele precisava de muito auxilio e esforço pessoal para no intervalo de alguns meses dominar o novo idioma, escrito, falado e compreendido. Pactuaram que após o trabalho ele estudaria inglês diariamente com Laila. O desafio de obter a chancela da Administração da Universidade foi vencido graças a uma oportuna tensão quando o Diretor da Faculdade de Medicina indicou um docente sem consultar o Reitor Flavio Suplicy de Lacerda. O Reitor em resposta indicou um segundo, o jovem Prof. Mulinari. Concluída a seletiva da Fundação, Adyr seguiria em 1960 para seu almejado treinamento em uma especialidade da medicina que se desenvolvia, a Nefrologia. Cirurgião de formação, escolheu como mentor para o desafio de alcançar proficiência em Clínica Médica o Professor Lysandro Santos Lima, eminente clínico e propedeuta em Curitiba.

Iniciou seu treinamento com um ano de Clínica Médica na Columbia University, em Nova Iorque, para depois seguir para Seattle, na University of Washington, com Belding Scribner. A sua formação nefrológica foi estendida ao final de 1962 também em Saint Louis, onde indicado por Scribner mostrou o que fazia em Seattle, e na Cleveland Clinic, com Willem Kolff.

Retornando a Curitiba em abril de 1963, foi o articulador do início da Residência em Clínica Médica no Hospital de Clínicas da UFPR. Também implantou o terceiro ano de residência em Nefrologia, com o primeiro residente sendo Altair Jacob Mocelin em 1967, que seguiria para Londrina em 1968 e realizaria o primeiro transplante do Paraná em 1973. Foi o primeiro de muitos orientados que contribuíram para o crescimento da Nefrologia no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Palestrante cativante dominou incontáveis plateias a convite de cidades das mais diversas regiões pelo Brasil, compartilhando com naturalidade o que aprendeu.

Desenvolveu um programa pioneiro de diálise crônica no Brasil, com hemodiálise utilizando o shunt de Scribner e diálise peritoneal intermitente, em meados dos anos 60, inicialmente no Hospital de Clínicas com a Enfermeira Alice de Lima e o Professor Augusto Laffitte e mais tarde no Hospital Nossa Senhora das Graças, entidade filantrópica de Curitiba. Sua liderança agregou esforços e competências para constituir o Centro de Pesquisas Nefrológicas na UFPR, com apoio do Governo do Paraná. Em 1977, compôs um trio de pesquisadores do Departamento de Clínica Médica para criar o Mestrado em Medicina Interna.

Foi Professor Titular de Nefrologia na UFPR, participando da formação de incontáveis profissionais, tanto na Clínica Médica quanto na Nefrologia. Além do ensino e da pesquisa, desenvolveu atividades de gestão acadêmica como Chefe do Departamento de Clínica Médica, Coordenador da Pós-Graduação em Medicina Interna e Diretor de Ciências da Saúde. Foi ainda Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia-SBN, da Associação Brasileira de Ensino Médico-ABEM e do Centro Cultural Brasil-Estados Unidos - Inter-Americano.

Médico e Professor Emérito de princípios rígidos, tinha no ensino médico e na UFPR a primeira e a segunda de suas grandes paixões. Primeiro membro de sua família a alcançar um diploma universitário, foi inspirador para seus irmãos, primos, filhos, sobrinho e netos, e a centenas de jovens médicos. Estudioso, manteve sua atualização na ciência médica mesmo depois de encerrar sua prática privada aos 80 anos.

Brasília, com quem se casou em 1954, foi aquela que acompanhou a todas as ousadias de Adyr, as noites e madrugadas de trabalho incessante, o estudo contínuo, o domínio do inglês, os períodos de aprendizagem na América, e mais tarde mesmo nas suas aventuras de "motorhome" pelo Brasil. Minha mãe, de meu irmão e de três irmãs, foi sempre dedicada e exigente, e fez companhia a ele em todos os momentos.

Adyr foi pai atencioso, de disciplina rígida, mas sensível e amigo, mesmo com suas múltiplas atividades. Capaz de compreender nossas fragilidades e apoiar e estimular o engrandecimento dos filhos, sempre para comportamento ético e humanista. Habilidoso e criativo, ensinou a todos que enfrentar desafios, pequenos e grandes, é que dá sentido na vida.

Um acidente de motocicleta aos 52 anos sacrificou seu joelho e perna direitos. Alertado por Santo, seu pai, ele percebeu que não perdeu uma perna, mas que ganhou uma vida. A deficiência física não lhe impediu de viver plenamente sua família, seus amigos, seu trabalho, e também suas paixões, seus desafios e suas realizações. A mobilidade, definida por ele como "o presente da vida" foi alcançada com inovações em próteses, veículos e triciclos dos mais diversos, em sintonia com sua criatividade e índole irrequieta.

Adyr ensinou pelo exemplo aos filhos e a todos os que tocou ao longo de sua jornada, recomendando que "conhecimento, sabedoria, busca da perfeição, trabalho árduo e esperto, lealdade e persistência, aprendizado com as dificuldades e habilidade de avaliar o contraditório dão poder e conduzem ao sucesso."

Adyr, o médico, o professor, o pai, o amigo deixa legados marcantes nos que tiveram o privilégio de com ele conviver até 1 de dezembro de 2017.

REFERÊNCIAS


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